segunda-feira, 23 de maio de 2022

chove sobre a minha infância - Miguel Sanches Neto

Citações Marcantes de "Chove sobre minha infância" de Miguel Sanches Neto

  1. "Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso. Pode ser até uma justificativa tola, mas como ela pesa para mim. Se você não a compreende, é porque sua história é outra, você não sente o travo amargo de um silêncio centenário."

  2. "A mãe não queria ele deixar trazer. O pai falou bastante coisa pra ela, mas não adiantou. Daí ele deu dinheiro e ela deixou."

  3. "Não sustento mais vagabundo. Você diz que pretende cursar agronomia, que assim poderia cuidar das terras ou trabalhar com os agricultores da região."

  4. "Não vou direto para a casa do pai, saio pelas ruas desviando de meus itinerários antigos. Quem passou a infância aqui só pode ter esta alma encardida. A poeira vermelha dá a tudo um véu de velhice. Percorro a cidade vazia desviando de meu destino."

  5. "Ele não lutava contra você, mas contra aquilo que você simbolizava. Você era o perigo, o assaltante inteligente que lhe tiraria tudo, que o deixaria na rua. A lógica das coisas queria que esta fosse sua função dentro da vida dele."

  6. "Não vou direto para a casa do pai, saio pelas ruas desviando de meus itinerários antigos. Quem passou a infância aqui só pode ter esta alma encardida. A poeira vermelha dá a tudo um véu de velhice. Percorro a cidade vazia desviando de meu destino”

  7. "O pai só valoriza quem é igual a ele, quem faz as coisas do jeito dele, quem se veste como ele, quem trabalha como ele. E eu sou diferente. Não quero seguir o mesmo destino”

  8. "Fico pensando se Sebastião não tem razão. As palavras não valem grande coisa mesmo. O que vale são os números."

  9. “Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso”

  10. “a lama e a poeira de então eram a da cidade que estava sendo feita, a dos destinos em construção – hoje são de decadência”.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Woody Allen: a autobiografia


Sim, eu estava aprendendo pouco a pouco, mas de uma forma indisciplinada que não me preparava para nada de substancial. Me chame de idiota e desconectado da realidade. Achei que talvez eu pudesse ser um caubói! Eu realmente pensei em ir para o Oeste e cuidar de gado. Dormir sob as estrelas. Ok, eu dormiria no chão com as tarântulas. Nesse meio-tempo, comprei um laço e, usando um balde em nosso porão como alvo, pratiquei como jogar a corda num touro. Nunca dominei isso. Provavelmente teria saído correndo se tivesse dado de cara com um touro em qualquer forma que não fosse num prato. Jesus, tenho medo até de cachorro. E estou falando de todo tipo de cachorro, incluindo yorkshires. Você vai me odiar, mas não gosto de animais de estimação. Naturalmente, não gosto de ser mordido, e odeio que soltem pelos em mim, me lambam ou latam. Na escala evolutiva, sempre vi todos os animais como humanos fracassados. Também não gosto do canto do canário ou quando peixes num aquário olham para mim. Recentemente, nossa filha veio para casa da faculdade com um ratinho de estimação. Então ela deixou o rato com a gente por um fim de semana, enquanto ia para os Hamptons com amigos. O rato ficou doente. Era uma emergência e Soon-Yi e eu fomos forçados a levar o rato para o pronto-socorro veterinário à meia-noite. As pessoas entravam e saíam com cachorros e gatos feridos e eu fiquei lá sentado com um rato asmático. Soon-Yi me fez aguentar, mas você ainda não viveu se não tentou ficar numa sala de emergência segurando um roedor às duas da manhã, ao lado de um homem com um papagaio que espirra. Enfim, eu não era um caubói, então talvez eu entrasse para o FBI. Claro, você precisa ser um advogado ou um contador para ser aceito. Mas eu levei bem a sério essa história de me tornar um agente antes de cair na real. Comprei o equipamento necessário, aprendi a tirar impressões digitais e a ler as marcas.
 


domingo, 4 de julho de 2021

virginia woolf - os anos





E apanhava-o frequentemente em pequenas vaidades como aquela. Mas isso apenas aumentava sua afeição pelo amigo. Como ele é bonito, pensava Ashley: sentado ali entre os dois, com a luz a dourar-lhe o cabelo claro. Como um efebo. Forte, mas de algum modo vulnerável. Necessitado de proteção. Tinha de ser defendido a todo custo de brutamontes como Gibbs, pensou selvagemente. Como podia Edward tolerar um boçal daqueles, pensou, olhando-o – que pare-cia desprender constantemente um cheiro de cerveja e de cavalo (tudo isso escutando o que o outro dizia) –, era coisa que lhe escapava.
*
"Morris levantou os olhos do livro que procurava ler. A pena de Eleanor arranhando o papel exasperava-o. Ela parava, escrevia, inclinava a cabeça. Todos os aborrecimentos da casa recaíam sobre ela, isso era certo. E, todavia, ela o exasperava assim mesmo. Estava sempre a fazer perguntas. E jamais escutava as respostas. Fixou os olhos no livro outra vez. Mas de que servia o esforço de ler?"
*
A atmosfera de emoção reprimida agastava-o. Não havia nada que qualquer um deles pudesse fazer, mas todos continuavam ali, naquela atitude geral de emoção reprimida. A costura de Milly o irritava como o irritava ver Delia recostada na sua cadeira sem fazer nada, como de hábito. E ali estava ele, trancafiado com aquelas mulheres numa atmosfera de emoção irreal. Enquanto Eleanor escrevia e escrevia e escrevia. Não havia nada que valesse a pena mencionar, naturalmente.
Estugou o passo e foi andando, até que chegou às casas baratas que seu pai desprezava tanto que sempre dava uma volta para evitá-las. Mas como era numa delas que vivia a Srta. Craddock, Kitty nimbava essas casas de romance. Seu coração bateu com força quando virou a esquina da capela nova e avistou os degraus da casa em que a Srta. Craddock morava. Lucy subia e descia aqueles degraus todo dia. Aquela era a janela do seu quarto. Aquela a sua campainha. O cordão da sineta saiu de repelão quando ela o puxou; mas não voltou mais, porque tudo estava aos pedaços...
*


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Confissões de uma máscara Yukio Mishima 1948





De tudo isso resultou para mim uma seleção e um sistema de preferências. Por causa dele, não pensava em amar um intelectual. Tampouco me sentia atraído por alguém do mesmo sexo que usasse óculos. Por sua causa, comecei a amar a força, a impressão que causa o sangue fluindo em abundância, a ignorância, os gestos rudes, a fala descuidada, a melancolia selvagem, inerente à carne, que não se deixa carcomer pelo intelecto...


 Meus pais moravam no segundo piso. Sob o pretexto de que seria perigoso criar um bebê no pavimento superior, minha avó arrancou-me, aos quarenta e nove dias de vida, dos braços de minha mãe. Fui criado no quarto dela, que cheirava a doença e a velhice, sempre fechado; ao lado de sua cama de enferma foi colocada uma cama para mim.

O médico da família foi chamado. “Não sei se ele vai se recuperar”, foram suas palavras. Como se eu fosse uma almofada de alfinetes, aplicaram-me injeções de cânfora e glicose. Durante duas horas não conseguiam sentir meus batimentos cardíacos nem no pulso nem no antebraço. As pessoas contemplavam o meu cadáver.

Providenciaram uma mortalha, trouxeram meus brinquedos prediletos, juntaram toda a família. Depois de cerca de uma hora, viram-me urinar. O irmão de minha mãe, que era médico, disse: “Ele vai viver!”. Aquilo, observou, era prova de que o coração estava funcionando. Dali a pouco tornei a urinar. Uma tímida luz de vida ressuscitava em minha face.

Lembro-me com clareza de que havia dois motivos importantes para esse meu desejo. Um deles era sua calça justa azul-marinho; o outro, sua profissão. A primeira delineava com perfeição seu corpo da cintura para baixo, movendo-se com agilidade, parecendo vir em minha direção. Passei a adorar de forma inexplicável essa vestimenta, embora não entendesse por quê.

Entregaram-me o que poderia chamar de cardápio completo das inquietudes de minha vida antes ainda que eu pudesse lê-lo.

Como sempre acontece, porém, a revolta das massas ignorantes não vai além da imitação barata. Na medida do possível, querem se esquivar dos perigos daí resultantes e saborear apenas o lado doce de sua rebelião: da rebeldia de Omi, imitamos apenas as meias chamativas. Tampouco eu sou exceção à regra.

Só ele, porém, “preenchia” por completo o uniforme austero da escola, que lembrava o de um oficial da Marinha, transmitindo uma sensação de solidez, uma espécie de sensualidade...






 "Jude, o Obscuro" (Jude the Obscure) de Thomas Hardy é uma das obras mais sombrias e pungentes da literatura inglesa, marcada por...